
A relação entre os aspectos mágicos da obra de Agrippa e a de Castañeda
Por Adriano Colângelo
Agrippa escreveu a sua De Occulta Philosophia em pleno século 16. Ali dá as sugestões de como usar a técnica para certas finalidades mágicas com elementos minerais. Castaneda aprende a lidar com certas forças da natureza, conhecendo os elementos vegetais. Agrippa propõe alterações no estado de consciência. Castaneda também aceita a experiência com drogas e ervas para alterar e romper bloqueios cerebrais. Os dois concordam que o caminho no universo desconhecido das percepções extra-sensoriais é um caminho sem retorno. Este é o esboço de uma teoria, as primeiras indicações de um caminho traçado por um colaborador de Planeta que é um pesquisador e um estudioso. Aqui ele apenas propõe o assunto, tendendo a continuá-lo, mais extenso, depois.
Um dos maiores méritos da nossa época perturbada pelas convulsões é o de descobrir, reformular e mesmo atualizar a sabedoria e o conhecimento dos antigos. Inegavelmente eles souberam conciliar, com grande hármonia, os três aspectos do indivíduo, que Jung definiu como subconsciente, consciente e superconsciente. Nos últimos anos voltaram à superfície da história não apenas os sábios orientalistas, com suas fascinantes e exóticas teorias, mas também aqueles personagens que fizeram e fazem as raízes do espiritualismo e ocultismo ocidentais: Dante, Nostradamus, Fulcanelli e Giordano Bruno, cuja lendária figura de monge e ocultista foi relançada há pouco em um filme excelente. A redescoberta da filosofia medieval e renascentista, cujas origens herméticas são cada vez mais evidentes, trouxe de volta um filósofo alemão que está ressurgindo da "neblina do tempo": Henricus Cornelius Agrippa (1486-1535). Investigações recentes descobriram um dos melhores textos (quem sabe a obra principal) de Agrippa: De Occulta Philosofia. Esse livro apresenta uma linha mestra de pensamento esotérico ocidental, cuja abordagem é vasta e rica pelo fato de não limitar-se a aspectos metafísicos ou das ciências herméticas em geral. Ele penetra e orienta a alta magia cerimonial, a farmacologia das ervas, a magia do reino mineral e animal, em um ângulo atual, muito próximo aos conhecimentos do índio yaqui Don Juan, dos livros de Carlos Castaneda.
Cornelius Agrippa, um precursor
Cornelius Agrippa divide sua obra De Occulta Philosofia em dois aspectos mágicos importantes: primeiro, ele penetra fundamente na magia referente à filosofia e morfologia ocultas do ser humano, com realce especial a todo o instrumental dos símbolos, caracteres e signos da magia cerimonial e operativa, dando inclusive sugestões de como usar as técnicas para certas finalidades mágicas, elementos minerais, vegetais e animais, com uma vastíssima documentação por ele mesmo pesquisada e organizada.
Paralelamente, Castaneda, na primeira parte da sua obra, aprende com don Juan a lidar com certas forças da natureza, em um jogo hábil de harmonização e afastamento, para poder caminhar no "fio da navalha" que conduz o personagem em sua fascinante arriscada Viagem a Utlan. Ao longo dessa viagem com Don Juan, ele aprende a usar como Agrippa os elementos vegetais, bem como defender-se de uma entidade elemental perigosa que, no topo de uma colina, quer atacá-lo mortalmente. Don Juan sugere a ele deitar-se dentro de uma cavidade na terra (cavidade: relação com a proteção ancestral da mãe Terra) e cobrir-se com folhas de uma planta que, mágica e extra-sensorialmente, o protegerão.
Mesmo o uso moderado das drogas, devidamente dosadas por don Juan, também já tinha sido sugerido por Agrippa para ajudar a alcançar estados perceptivos e extra-físicos. Quanto à visão de mundo, Agrippa e Castaneda concebem o ser humano como um escravo não ligado diretamente ao mundo real, mas a uma "diretriz", utilizada inclusive para a sobrevivência. Isto o obriga a viver em um mundo de aparências que desvia da realidade verdadeira. Por isso é necessário coragem e responsabilidade para abordar o mundo mágico que exige mudança da percepção, para que a consciência cognitiva possa ser dirigida corretamente.
Com a linguagem clara e lúcida dos filósofos renascentistas, Agrippa diz que com a mudança do foco da consciência, podemos entrar em um campo onde as leis são diferentes mas não irreais. Ele propõe uma alteração — perigosa para a época mas que dá a medida da sua coragem e sabedoria — na abordagem da religião: ele considera as religiões como um primeiro passo para o mundo da percepção, onde o sistema moral, que funciona tanto para as massas como também para o indivíduo, dá a estrutura necessária para uma primeira organização no mundo do instinto, da emoção e do intelecto.
Consciências abertas a universos paralelos
O segundo estágio, sempre segundo Agrippa, seria o desenvolvimento do estudo profundo da teologia, da cultura e das artes em geral, para que a consciência possa ter uma visão do mundo terreno mais completa na sua complexidade aparente, o que serve de preparação final para entender os primeiros elementos do mundo perceptivo.
O estudo comparado da teologia e da estética despertaria percepções analógicas da essência religiosa com a essência artística. Uma vez alcançado com plenitude este aspecto, Agrippa abre lentamente as portas da percepção mágica, descobrindo vagarosamente, o mundo da magia natural.
Castaneda também aceita, sob a direção de Don Juan e de Don Gennaro, alternadamente a experiência com as ervas e drogas, que podem alterar ou romper os bloqueios cerebrais ou químicos do sangue, fazendo surgir uma percepção da realidade, onde as leis mágicas não conferem com as nossas e que o poder natural-mágico de certos indivíduos se pode conseguir sem o impulso inicial das ervas e das drogas.
O esquema do quotidiano e as outras realidades
Castaneda conseguiu abrir gradualmente certos bloqueios, primeiro afrouxando as qualidades perceptivas, para depois acostumar-se a elas e entrar com maior amplitude existencial e força pessoal (a força do poder, como diz Don Juan) no mundo das dimensões mágicas, dentro das quais pode-se captar e aprender a usar certas técnicas que permitem romper o esquema do quotidiano e, ao mesmo tempo, rasgar a bolha dentro da qual nós estamos localizados e assim conhecer outras realidades fenomenológicas.
Estas técnicas podem ser perigosas se não forem acompanhadas por um orientador (e aqui lembramos o papel simbólico de Virgílio que conduz cuidadosamente Dante no inferno e no purgatório) que possa ajudar o aspirante a suportar o abalo da estrutura primitiva, preestabelecida na infância. Paradoxalmente o mundo da personalidade (chamado "Tonal" por Castaneda) deve ser fortalecido para não ser aniquilado pela fenomenologia incrível das novas percepções. De fato, essas percepções que se verificam fora do "Tonal" devem ser interrompidas para que a consciência reassuma a segurança do mundo primitivo e não corra o risco de "não voltar" ou de ingressar em uma forma de loucura alucinatória que, quebrando irremediavelmente a personalidade, transforma indivíduo em uma larva humana e nunca em um verdadeiro iniciado.
Agrippa e Castaneda concordam que, pouco a pouco, instala-se uma flexibilidade na consciência que pode e deve prescindir neste estágio do auxílio das ervas. O aprendiz é suficientemente sensível e descondicionado para um caminho livre, onde a consciência e a capacidade perceptiva das dimensões extra-sensoriais formam um verdadeiro universo paralelo, transformando o indivíduo em um! microcosmo consciente do seu universo "real" e do verdadeiro significado da sua existência.
0 caminho sem retorno e a bolha quebrada
Como Castaneda indica em seu terceiro livro e Agrippa no segundo volume da obra citada, o caminho no universo desconhecido das percepções extra-sensoriais é um caminho sem retorno porque, uma vez quebrada a "bolha", atravessado o "espelho" e entrado no "Ixtlan", temos que, automática e gradativamente, abandonar os valores tão queridos da nossa vida quotidiana para poder abraçar o desconhecido. Para isso é necessário um certo abandono do próprio prestígio e da "história péssoal", como diz don Juan, utilizando-se dela apenas em certos momentos para que seja um ponto de referência para as primeiras explorações no mundo metafísico que Castaneda chama de "Nagual".
No mundo "Nagual", como no da "Magia Divina" de Agrippa, as experiências transcendentais são totalmente pessoais, podendo sugerir um certo padrão que Castaneda, por ser antropólogo, procura ressaltar. Estas experiências, adverte Agrippa, põem o indivíduo em condições de enfrentar uma "viagem" inexorável com o sabor de partida para novos "orbes" que criam, no começo, nostalgias e emoções de despedida muito dolorosas de enfrentar, sobretudo porque não há a mínima possibilidade de volta; o que acarretaria castigos terríveis desencadeados por leis e entidades, cuja inteligência e força energéticas fogem ao controle humano ou, ao mais evoluído entendimento.
A magia, continua Agrippa, é a verdadeira ciência do aprendiz que queira ter uma visão do mundo real e do mundo transcendental. A magia é a verdadeira ciência e a filosofia mais elevada e completa porque toda filosofia se divide em matemática, física, teologia e iniciação mágica: não pode haver uma obra de magia perfeita que não encerre as quatro disciplinas acima enumeradas. Qualquer pessoa que queira operar na magia, precisa saber e conhecer as propriedades da sua alma, sua virtude, medida, ordem e grau de potência no próprio universo, para nele localizar-se e nele descobrir sua função. E por isso o filósofo alemão diz que a magia não é a ciência de realizar o impossível: ela é a técnica "integral" da natureza. O milagre que o mago realiza não é uma violação das leis da natureza mas sua realização.
A obra de Agrippa é um espelho do cosmo
O mago deve estar consciente de ser uma célula inteligente de um "organismo cósmico" que participa "ativamente do grande plano do universo". Nesse aspecto, Agrippa considera também a magia como um tecido integrativo desse "organismo cósmico", que ensina o "método interdisciplinar" (só para usar uma expressão moderna) entre a ciência teórica e prática da natureza física e metafísica humana e sobre-humana, observada e conhecida seja exteriormente seja interiormente.
Agrippa estrutura sua obra de tal maneira que a teoria e a prática, a doutrina e a obra, o dogma e o ritual desta ciência integral, ou Filosofia Oculta da natureza, obedeçam a uma divisão em três partes, analogamente como seu tratado é dividido em três abordagens que são: 1) mundo elementar, constituído pelos quatro elementos (terra, água, fogo e ar) que compreendem todos os objetos e os corpos terrestres; 2) mundo celeste ou sideral, que é aquele dos planetas e das estrelas fixas, que governam o anterior; 3) mundo intelectual que, por sua vez, dirige o mundo terrestre e o sideral. Assim, cada mundo inferior é dominado e governado por outro, superior a ele mesmo, recebendo suas influências de maneira que o Ente Soberano comunica sua potência e sua vontade ao mundo elementar e terrestre por meio dos céus e das estrelas, que seriam símbolos de forças ocultas correspondentes.
É por isso que o sábio alemão afirma que os conhecimentos que se referem a estas três partes do mundo formam três centros de forças que são: a) "magia natural ou física", com suas propriedades, constituição e aspecto dos corpos orgânicos e inorgânicos, o efeito do calor, razão das marés, o 'arco-íris, o raio, os cometas, as minas dos principais metais (hoje surpreendentemente detectados pelos satélites como fortíssimos campos magnéticos), energia escondida que faz a terra tremer, origem dos homens e dos animais: e as virtudes das ervas; b) "magia celeste ou matemática que possibilita o conhecimento da natureza nas suas três dimensões, o movimento e a órbita dos planetas, os eclipses e a causa das estações, dependendo dela, obviamente, temos a astrologia; c) "magia cerimonial ou teologia", que ensina tudo sobre Deus, anjos e demônios (em seu significado pré-cristão, como os "exus" da mitologia afro-brasileira), a alma, o pensamento, a religião, os sacramentos, as cerimônias, os templos, as festas e os mistérios, tratando paralelamente da fé, dos milagres, das virtudes das palavras e dos caracteres misteriosos.
Trindade divina e trindade humana
Segundo Agrippa o homem foi criado à imagem de Deus e, como existe uma trindade divina no macrocosmo, há uma trindade humana no microcosmo, assim constituída: "mens" (mente), "ratio" (razão) e "idolum" (eidolon, essência). A mente esclarece a razão, fluindo depois na essência, sendo que esses três elementos constituem, ao integrar-se, a natureza humana microcósmica. Esta integração trinária é necessária não apenas para que cada elemento isolado não caia no erro de uma visão parcial — e como tal não cósmica — como também para fazer que o homem ingresse com harmonia e serenidade no mundo das percepções extra-sensoriais, no "Nagual" de Castaneda.
Agrippa foi profundamente atraído pelo Renascimento italiano, sobretudo pelo florentino, onde a claridade da razão, o intelecto como direção cultural e a mente levando o todo para a essência da filosofia de Pico Della Mirandola, Marsilio Ficino e Baldassarre Castiglione se constituíam em uma síntese estético-filosófica, paralela ao pensamento do próprio Agrippa, que ia descobrir e contatar com os artistas e teóricos florentinos uma fortíssima corrente iniciática que era a força propulsora de Florença. Feito o contato, Agrippa percebe a importância vital do Renascimento, em contraste com a deficiência espiritual da Igreja, o isolamento dos monges, os excessos do clero, os horrores da Inquisição e a oportunidade que o momento histórico oferecia em termos de renovação, paralelamente ao fomentar a Reforma. Ele vai ligar-se humanisticamente à Antiguidade clássicas, harmonizando, em um sincretismo guiado pela iniciação, o cristianismo e o paganismo, o pitagorismo e o platonismo com a cabala e o hermetismo, levando assim sua obra a uma organização cultural de todos aqueles elementos à luz da ciência espiritual da mais alta magia.
Humanista, escritor de estilo eficaz, italiano de cultura e florentino pela lucidez com que conduzia seu pensamento, compreendeu como a cultura, em senso. completo e profundo da ciência, podia talvez reconstituir, na Europa, uma hierarquia espiritual atuante. Para está tarefa, Agrippa lutou dura e serenamente por toda sua vida, enfrentando com astúcia e inteligência os perigos que pesavam sobre a sociedade da época e que levou seu irmão espiritual, Giordano Bruno, a uma morte brutal e vergonhosa.
Médico, teólogo, cientista, humanista e ocultista, Agrippa soube coordenar o espírito de luta à inteligência e à iniciação, únicas armas disponíveis (mas que armas!) para levar um pouco de luz aos conflitos humanos do seu tempo.
Assim como Agrippa na Europa seiscentista, Castaneda nas Américas de hoje descobre e estuda por anos, silenciosamente, as raízes étnicas, folclóricas e antropológicas do nosso continente, sua riqueza iniciática, descobrindo nos índios yaquis o núcleo iniciático propulsor e vivo que projetou atravês de outros núcleos autóctones a cultura maia, asteca, inca, marajoara e tapajoara, tentando, através dos seus livros, tornar o homem latino-americano não apenas voltado para o "Tonal", mas também consciente do "Nagual", para que a tocha da civilização ameríndia volte a brilhar para as Américas e para um mundo cada vez mais mergulhado nas trevas perigosamente obscuras do "Kali-Yuga".
AGRIPPA
Trecho do livro De Decana Philosophia; capítulo sobre O Poder da Alma Humana na Razão, na Mente e no Eidolon:
"O poder da imaginação e da vontade é tão poderoso que pode se insinuar em qualquer lugar, sobretudo quando este poder realizará plenamente sua natureza mágica, isto é, quando não terá mais o peso dos sentidos e da lógica da razão, que é o limite do homem normal. Então as almas se preenchem de uma luz abundante, à semelhança dos astros, que se irradia dos corpos e transforma as pessoas, mas para isso é preciso coma vontade ferrenha do mágico, fundir a razão na mente e esta no eidolon, onde se descobrirão assim duas potentíssimas virtudes: a primeira chama-se fantasia ou virtude imaginativa, que se manifesta, às vezes espontaneamente, no estado de vigília, enquanto a segunda é o senso da natureza, isto é, a harmonia e o conhecimento seletivo de todas as coisas".
CASTANEDA
Trecho do livro Porta Para o Infinito, capítulo: O Segredo dos Seres Luminosos:
"Somos percebedores. O mundo que percebemos, porém, é uma ilusão. Foi criado por uma descrição que nos foi contada desde o momento em que nascemos. Nós, os seres luminosos, nascemos com dois círculos de poder, mas só usamos um para criar o mundo. Esse círculo, que é preso logo depois que nascemos é a razão e seu companheiro é falar. Assim o mundo que sua razão quer sustentar é o mundo criado por uma descrição e suas regras dogmáticas e invioláveis que a razão aprende a aceitar e defender. 0 segredo dos seres luminosos é que têm um outro círculo de poder que nunca é usado, a vontade. O truque do feiticeiro é o mesmo do homem normal. Ambos têm uma descrição; um homem normal, a sustenta com sua razão; o outro, o feiticeiro, a sustenta com sua vontade. Ambas as descrições têm suas regras".
(Fonte: Revista Planeta nº 40, Janeiro de 1976)















