
Petrópolis, 09 de maio de 2008 e.v.
A quem interessar possa;
Faz o que tu queres há de ser tudo da Lei.
Queria eu saber o que há de errado? Queria saber como a simples presença de um homem é capaz de gerar tantas coisas, sejam elas consideradas boas ou ruins? Na verdade, como bom otimista que sou em relação ao homem, acredito que esteja havendo uma violenta movimentação na direção de um aprimoramento. Vivemos a época da consolidação da Lei.
Quanta confusão em nosso meio. Porque parece que Thelema tem o dom de expor o que cada homem e mulher tem de melhor e de pior, e tudo isso em uma intensidade que poderia ser considerado alarmante? Pessoas, de maneira consciente, se esforçam sinceramente para piorarem aquilo que não precisa ser mais piorado. Mas compreendo que existe a confluência de energias antagônicas e que o choque entre elas gera todas essas "mazelas". No entanto, não as considero ruins de todo.
Nunca considerei Thelema uma brincadeira. Se algo extremamente poderoso dentro de mim não tivesse me levado em direção à A.’.A, acho que nunca teria dado um passo nessa direção. Nunca consegui compreender o que leva uma pessoa a querer ser mais do que ela pode ser. Nunca consegui compreender o prazer mórbido em querer ter aquilo que irá destruí-lo. Quantos de nós podemos dizer sinceramente, em nossa mais profunda intimidade, que fomos escolhidos pelo Altíssimo? Não sei qual o prazer mórbido que alguns alimentam em suas vaidades em querer ser de altíssimo grau na Santíssima Fraternidade, quando isto acarreta responsabilidades que nenhum homem sequer imagina. Quão terrível é o nosso diabo em desejar algo que é constantemente recusado por todos os Iniciados, são exceção, mas aceito por falta de escolha.
Em sã consciência nenhum homem que não seja escolhido pelo Altíssimo deveria aspirar o Caminho designado pela A.’.A. Isto não quer dizer que uns sejam melhores que outros, apenas temos destinos diferentes. Uns nascem com talento para medicina, outros para engenharia, outros para as artes… e assim cada destino se cumpre integralmente e em perfeito equilíbrio com a Verdadeira Vontade. Ser um Aspirante, um Neófito, um Adeptus ou um Mestre não quer dizer que se seja melhor ou pior, lembrem-se que a A.’.A é uma Fraternidade e Fraternidade pressupõe Igualdade. Todos fazem parte desta Fraternidade, que não é física e nem pode ser tocada pela vaidade ou pela ganância, pois Ela é Santa, Incorruptível como cada um de seus Aspirantes e Mestres. Não sei quantos de vocês que ao lerem esta carta se lembrem da nossa última reunião em Fraternidade. Muitos me torceram o nariz naquele dia, mas me foi dado o privilégio de ensinar o pouco que consegui aprender.
Com certeza este é, definitivamente, o Aeon de Hórus e seu objetivo é a Destruição da Fraqueza. Da Fraqueza em todos os níveis do convívio humano e isto me faz compartilhar do mesmo sentimento de Mestre Therion em relação a estes primeiros quinhentos anos do Aeon. O Aeon vibra em Daath e assim cada um poderá fazer a correlação que a experiência de cada um oferece. Todas as confusões que nós "seguidores" de Thelema sempre fizemos é fruto do Sofrimento: da Essência do Sofrimento. Como o diabo (i.e., o Ego) percebe a Destruição da Fraqueza, ele tenta a todo custo impedir aquilo que é impossível de ser detido. Toda vez que penso e sinto isto em meu Coração, e consigo expressar em minha Inteligência, entendo o que Mestre Therion sentia ao ver o mundo ruindo e marchando para as Guerras. Compreendo a nossa outra responsabilidade de Aspirantes à A.’.A, como depende de nós manter em equilíbrio daquilo que não sabe como se manter em equilíbrio. Por isso, devemos ensinar. Todos nós Sacerdotes do Aeon de Aquário/Leão, detentores da Aproximação do Altíssimo, temos entre nossas obrigações ainda mais esta.
Que tempos importantes que vivemos. É para nós um privilégio poder viver em um tempo em que sabemos que a nossa presença é de alguma importância. Se a Santíssima Fraternidade nos escolheu por algum mérito anterior, a única coisa que podemos fazer é aceitar esta doce tarefa. Viemos para tornar viva e clara as palavras do Profeta da Amorável Estrela e nem sempre isto é uma tarefa fácil, apesar de ser extremamente prazerosa.
Confesso que me divirto vendo todas essas confusões, mentiras e artimanhas; isto deve ser devido ao fato de vibrar dentro da Lei. Como filha, sou a mãe; na Aparência do filho, sou o Destruidor. Mas para que eu possa Destruir, preciso colocar algo em seu lugar, mas confesso que tudo isso é extremamente difícil e perigoso. O problema das invocações planetárias é justamente esta: é que podemos em um simples gesto, mal feito, modificar o Destino.
Thelema é uma Religião. Assim como o Masdeísmo, ela é uma religião interna, quase que oculta aos seus seguidores. Quando ela se externaliza e se coloca ao nível de uma seita, gera as confusões que temos presenciado nestes cem anos de seu "surgimento". Fomos e somos avisados constantemente pelos Escritos Sagrados sobre tal coisa, mas ainda teimamos em comentar aleatoriamente, em "pregar" e em tentar converter Almas que de alguma maneira a sentem, mas que não conseguem traduzir em um comportamento ou em um código aceitável de conduta de vida. Curiosamente, o Masdeísmo ruma à extinção?
Sei que esta carta pode não estar sendo muito direta e nem muito fácil de entendimento de seu objetivo, mas se Thelema se "arrasta" pelo mundo é porque nós estamos descumprindo preceitos básicos. A iniciação nunca mudou o caráter de uma pessoa, é uma grande ignorância acreditar no contrário. Ser Divino é saber dominar a Besta, por isso sempre digo que somos o receptáculo para Babalon, que momentaneamente domina a Besta, mas que quando esta Besta foge de seu cativeiro, ela deve trazer o mínimo daquela experiência divina para se ser um pouco menos bestial.
O que falta em todos nós é a Humildade. Humildade em compreender que somos deuses imperfeitos, tal como as divindades gregas e egípcias sempre nos lembram. Humildade em compreender que como Sekhet, que destruia tudo e todos, somos vencidos pela força e vigor do Babuíno, esta é uma das lendas mais belas e significantes do antigo Egito. Humildade em reconhecer as nossas próprias limitações, quer sejam elas espirituais, emocionais, mentais e físicas.
Ora, sabemos que a Iniciação leva todos à beira da loucura, da esquizofrenia e gera, de acordo com a Verdadeira Vontade, patologias irreversíveis. O Sr. Marcelo Motta dizia que quatro coisas podem acontecer a um iniciado: ou a Iluminação; ou a loucura espiritual; ou a loucura física; ou a morte. Isto é um fato. Como é um fato que a Santíssima Fraternidade é tão real quanto o beijo que dou na face de meu filho, agora. Então, mais uma vez pergunto: quem pode realmente dizer que foi escolhido pelo Altíssimo? Mas quem foi compreenderá o objetivo desta carta, com certeza mal escrita ou mal formulada, mas um verdadeiro pedido fraterno.
Amor é a lei, amor sob vontade.
Carinhosamente, Frater Fênix