Sexta-feira


A relação entre os aspectos mágicos da obra de Agrippa e a de Castañeda



Por Adriano Colângelo

Agrippa escreveu a sua De Occulta Philosophia em pleno século 16. Ali dá as sugestões de como usar a técnica para certas finalidades mágicas com elementos minerais. Castaneda aprende a lidar com certas forças da natureza, conhecendo os elementos vegetais. Agrippa propõe alterações no estado de consciência. Castaneda também aceita a experiência com drogas e ervas para alterar e romper bloqueios cerebrais. Os dois concordam que o caminho no universo desconhecido das percepções extra-sensoriais é um caminho sem retorno. Este é o esboço de uma teoria, as primeiras indicações de um caminho traçado por um colaborador de Planeta que é um pesquisador e um estudioso. Aqui ele apenas propõe o assunto, tendendo a continuá-lo, mais extenso, depois.
Um dos maiores méritos da nossa época perturbada pelas convulsões é o de descobrir, reformular e mesmo atualizar a sabedoria e o conhecimento dos antigos. Inegavelmente eles souberam conciliar, com grande hármonia, os três aspectos do indivíduo, que Jung definiu como subconsciente, consciente e superconsciente. Nos últimos anos voltaram à superfície da história não apenas os sábios orientalistas, com suas fascinantes e exóticas teorias, mas também aqueles personagens que fizeram e fazem as raízes do espiritualismo e ocultismo ocidentais: Dante, Nostradamus, Fulcanelli e Giordano Bruno, cuja lendária figura de monge e ocultista foi relançada há pouco em um filme excelente. A redescoberta da filosofia medieval e renascentista, cujas origens herméticas são cada vez mais evidentes, trouxe de volta um filósofo alemão que está ressurgindo da "neblina do tempo": Henricus Cornelius Agrippa (1486-1535). Investigações recentes descobriram um dos melhores textos (quem sabe a obra principal) de Agrippa: De Occulta Philosofia. Esse livro apresenta uma linha mestra de pensamento esotérico ocidental, cuja abordagem é vasta e rica pelo fato de não limitar-se a aspectos metafísicos ou das ciências herméticas em geral. Ele penetra e orienta a alta magia cerimonial, a farmacologia das ervas, a magia do reino mineral e animal, em um ângulo atual, muito próximo aos conhecimentos do índio yaqui Don Juan, dos livros de Carlos Castaneda.

Cornelius Agrippa, um precursor

Cornelius Agrippa divide sua obra De Occulta Philosofia em dois aspectos mágicos importantes: primeiro, ele penetra fundamente na magia referente à filosofia e morfologia ocultas do ser humano, com realce especial a todo o instrumental dos símbolos, caracteres e signos da magia cerimonial e operativa, dando inclusive sugestões de como usar as técnicas para certas finalidades mágicas, elementos minerais, vegetais e animais, com uma vastíssima documentação por ele mesmo pesquisada e organizada.
Paralelamente, Castaneda, na primeira parte da sua obra, aprende com don Juan a lidar com certas forças da natureza, em um jogo hábil de harmonização e afastamento, para poder caminhar no "fio da navalha" que conduz o personagem em sua fascinante arriscada Viagem a Utlan. Ao longo dessa viagem com Don Juan, ele aprende a usar como Agrippa os elementos vegetais, bem como defender-se de uma entidade elemental perigosa que, no topo de uma colina, quer atacá-lo mortalmente. Don Juan sugere a ele deitar-se dentro de uma cavidade na terra (cavidade: relação com a proteção ancestral da mãe Terra) e cobrir-se com folhas de uma planta que, mágica e extra-sensorialmente, o protegerão.

Mesmo o uso moderado das drogas, devidamente dosadas por don Juan, também já tinha sido sugerido por Agrippa para ajudar a alcançar estados perceptivos e extra-físicos. Quanto à visão de mundo, Agrippa e Castaneda concebem o ser humano como um escravo não ligado diretamente ao mundo real, mas a uma "diretriz", utilizada inclusive para a sobrevivência. Isto o obriga a viver em um mundo de aparências que desvia da realidade verdadeira. Por isso é necessário coragem e responsabilidade para abordar o mundo mágico que exige mudança da percepção, para que a consciência cognitiva possa ser dirigida corretamente.

Com a linguagem clara e lúcida dos filósofos renascentistas, Agrippa diz que com a mudança do foco da consciência, podemos entrar em um campo onde as leis são diferentes mas não irreais. Ele propõe uma alteração — perigosa para a época mas que dá a medida da sua coragem e sabedoria — na abordagem da religião: ele considera as religiões como um primeiro passo para o mundo da percepção, onde o sistema moral, que funciona tanto para as massas como também para o indivíduo, dá a estrutura necessária para uma primeira organização no mundo do instinto, da emoção e do intelecto.

Consciências abertas a universos paralelos

O segundo estágio, sempre segundo Agrippa, seria o desenvolvimento do estudo profundo da teologia, da cultura e das artes em geral, para que a consciência possa ter uma visão do mundo terreno mais completa na sua complexidade aparente, o que serve de preparação final para entender os primeiros elementos do mundo perceptivo.
O estudo comparado da teologia e da estética despertaria percepções analógicas da essência religiosa com a essência artística. Uma vez alcançado com plenitude este aspecto, Agrippa abre lentamente as portas da percepção mágica, descobrindo vagarosamente, o mundo da magia natural.

Castaneda também aceita, sob a direção de Don Juan e de Don Gennaro, alternadamente a experiência com as ervas e drogas, que podem alterar ou romper os bloqueios cerebrais ou químicos do sangue, fazendo surgir uma percepção da realidade, onde as leis mágicas não conferem com as nossas e que o poder natural-mágico de certos indivíduos se pode conseguir sem o impulso inicial das ervas e das drogas.

O esquema do quotidiano e as outras realidades

Castaneda conseguiu abrir gradualmente certos bloqueios, primeiro afrouxando as qualidades perceptivas, para depois acostumar-se a elas e entrar com maior amplitude existencial e força pessoal (a força do poder, como diz Don Juan) no mundo das dimensões mágicas, dentro das quais pode-se captar e aprender a usar certas técnicas que permitem romper o esquema do quotidiano e, ao mesmo tempo, rasgar a bolha dentro da qual nós estamos localizados e assim conhecer outras realidades fenomenológicas.
Estas técnicas podem ser perigosas se não forem acompanhadas por um orientador (e aqui lembramos o papel simbólico de Virgílio que conduz cuidadosamente Dante no inferno e no purgatório) que possa ajudar o aspirante a suportar o abalo da estrutura primitiva, preestabelecida na infância. Paradoxalmente o mundo da personalidade (chamado "Tonal" por Castaneda) deve ser fortalecido para não ser aniquilado pela fenomenologia incrível das novas percepções. De fato, essas percepções que se verificam fora do "Tonal" devem ser interrompidas para que a consciência reassuma a segurança do mundo primitivo e não corra o risco de "não voltar" ou de ingressar em uma forma de loucura alucinatória que, quebrando irremediavelmente a personalidade, transforma indivíduo em uma larva humana e nunca em um verdadeiro iniciado.

Agrippa e Castaneda concordam que, pouco a pouco, instala-se uma flexibilidade na consciência que pode e deve prescindir neste estágio do auxílio das ervas. O aprendiz é suficientemente sensível e descondicionado para um caminho livre, onde a consciência e a capacidade perceptiva das dimensões extra-sensoriais formam um verdadeiro universo paralelo, transformando o indivíduo em um! microcosmo consciente do seu universo "real" e do verdadeiro significado da sua existência.

0 caminho sem retorno e a bolha quebrada

Como Castaneda indica em seu terceiro livro e Agrippa no segundo volume da obra citada, o caminho no universo desconhecido das percepções extra-sensoriais é um caminho sem retorno porque, uma vez quebrada a "bolha", atravessado o "espelho" e entrado no "Ixtlan", temos que, automática e gradativamente, abandonar os valores tão queridos da nossa vida quotidiana para poder abraçar o desconhecido. Para isso é necessário um certo abandono do próprio prestígio e da "história péssoal", como diz don Juan, utilizando-se dela apenas em certos momentos para que seja um ponto de referência para as primeiras explorações no mundo metafísico que Castaneda chama de "Nagual".
No mundo "Nagual", como no da "Magia Divina" de Agrippa, as experiências transcendentais são totalmente pessoais, podendo sugerir um certo padrão que Castaneda, por ser antropólogo, procura ressaltar. Estas experiências, adverte Agrippa, põem o indivíduo em condições de enfrentar uma "viagem" inexorável com o sabor de partida para novos "orbes" que criam, no começo, nostalgias e emoções de despedida muito dolorosas de enfrentar, sobretudo porque não há a mínima possibilidade de volta; o que acarretaria castigos terríveis desencadeados por leis e entidades, cuja inteligência e força energéticas fogem ao controle humano ou, ao mais evoluído entendimento.

A magia, continua Agrippa, é a verdadeira ciência do aprendiz que queira ter uma visão do mundo real e do mundo transcendental. A magia é a verdadeira ciência e a filosofia mais elevada e completa porque toda filosofia se divide em matemática, física, teologia e iniciação mágica: não pode haver uma obra de magia perfeita que não encerre as quatro disciplinas acima enumeradas. Qualquer pessoa que queira operar na magia, precisa saber e conhecer as propriedades da sua alma, sua virtude, medida, ordem e grau de potência no próprio universo, para nele localizar-se e nele descobrir sua função. E por isso o filósofo alemão diz que a magia não é a ciência de realizar o impossível: ela é a técnica "integral" da natureza. O milagre que o mago realiza não é uma violação das leis da natureza mas sua realização.

A obra de Agrippa é um espelho do cosmo

O mago deve estar consciente de ser uma célula inteligente de um "organismo cósmico" que participa "ativamente do grande plano do universo". Nesse aspecto, Agrippa considera também a magia como um tecido integrativo desse "organismo cósmico", que ensina o "método interdisciplinar" (só para usar uma expressão moderna) entre a ciência teórica e prática da natureza física e metafísica humana e sobre-humana, observada e conhecida seja exteriormente seja interiormente.

Agrippa estrutura sua obra de tal maneira que a teoria e a prática, a doutrina e a obra, o dogma e o ritual desta ciência integral, ou Filosofia Oculta da natureza, obedeçam a uma divisão em três partes, analogamente como seu tratado é dividido em três abordagens que são: 1) mundo elementar, constituído pelos quatro elementos (terra, água, fogo e ar) que compreendem todos os objetos e os corpos terrestres; 2) mundo celeste ou sideral, que é aquele dos planetas e das estrelas fixas, que governam o anterior; 3) mundo intelectual que, por sua vez, dirige o mundo terrestre e o sideral. Assim, cada mundo inferior é dominado e governado por outro, superior a ele mesmo, recebendo suas influências de maneira que o Ente Soberano comunica sua potência e sua vontade ao mundo elementar e terrestre por meio dos céus e das estrelas, que seriam símbolos de forças ocultas correspondentes.
É por isso que o sábio alemão afirma que os conhecimentos que se referem a estas três partes do mundo formam três centros de forças que são: a) "magia natural ou física", com suas propriedades, constituição e aspecto dos corpos orgânicos e inorgânicos, o efeito do calor, razão das marés, o 'arco-íris, o raio, os cometas, as minas dos principais metais (hoje surpreendentemente detectados pelos satélites como fortíssimos campos magnéticos), energia escondida que faz a terra tremer, origem dos homens e dos animais: e as virtudes das ervas; b) "magia celeste ou matemática que possibilita o conhecimento da natureza nas suas três dimensões, o movimento e a órbita dos planetas, os eclipses e a causa das estações, dependendo dela, obviamente, temos a astrologia; c) "magia cerimonial ou teologia", que ensina tudo sobre Deus, anjos e demônios (em seu significado pré-cristão, como os "exus" da mitologia afro-brasileira), a alma, o pensamento, a religião, os sacramentos, as cerimônias, os templos, as festas e os mistérios, tratando paralelamente da fé, dos milagres, das virtudes das palavras e dos caracteres misteriosos.

Trindade divina e trindade humana

Segundo Agrippa o homem foi criado à imagem de Deus e, como existe uma trindade divina no macrocosmo, há uma trindade humana no microcosmo, assim constituída: "mens" (mente), "ratio" (razão) e "idolum" (eidolon, essência). A mente esclarece a razão, fluindo depois na essência, sendo que esses três elementos constituem, ao integrar-se, a natureza humana microcósmica. Esta integração trinária é necessária não apenas para que cada elemento isolado não caia no erro de uma visão parcial — e como tal não cósmica — como também para fazer que o homem ingresse com harmonia e serenidade no mundo das percepções extra-sensoriais, no "Nagual" de Castaneda.
Agrippa foi profundamente atraído pelo Renascimento italiano, sobretudo pelo florentino, onde a claridade da razão, o intelecto como direção cultural e a mente levando o todo para a essência da filosofia de Pico Della Mirandola, Marsilio Ficino e Baldassarre Castiglione se constituíam em uma síntese estético-filosófica, paralela ao pensamento do próprio Agrippa, que ia descobrir e contatar com os artistas e teóricos florentinos uma fortíssima corrente iniciática que era a força propulsora de Florença. Feito o contato, Agrippa percebe a importância vital do Renascimento, em contraste com a deficiência espiritual da Igreja, o isolamento dos monges, os excessos do clero, os horrores da Inquisição e a oportunidade que o momento histórico oferecia em termos de renovação, paralelamente ao fomentar a Reforma. Ele vai ligar-se humanisticamente à Antiguidade clássicas, harmonizando, em um sincretismo guiado pela iniciação, o cristianismo e o paganismo, o pitagorismo e o platonismo com a cabala e o hermetismo, levando assim sua obra a uma organização cultural de todos aqueles elementos à luz da ciência espiritual da mais alta magia.

Humanista, escritor de estilo eficaz, italiano de cultura e florentino pela lucidez com que conduzia seu pensamento, compreendeu como a cultura, em senso. completo e profundo da ciência, podia talvez reconstituir, na Europa, uma hierarquia espiritual atuante. Para está tarefa, Agrippa lutou dura e serenamente por toda sua vida, enfrentando com astúcia e inteligência os perigos que pesavam sobre a sociedade da época e que levou seu irmão espiritual, Giordano Bruno, a uma morte brutal e vergonhosa.

Médico, teólogo, cientista, humanista e ocultista, Agrippa soube coordenar o espírito de luta à inteligência e à iniciação, únicas armas disponíveis (mas que armas!) para levar um pouco de luz aos conflitos humanos do seu tempo.

Assim como Agrippa na Europa seiscentista, Castaneda nas Américas de hoje descobre e estuda por anos, silenciosamente, as raízes étnicas, folclóricas e antropológicas do nosso continente, sua riqueza iniciática, descobrindo nos índios yaquis o núcleo iniciático propulsor e vivo que projetou atravês de outros núcleos autóctones a cultura maia, asteca, inca, marajoara e tapajoara, tentando, através dos seus livros, tornar o homem latino-americano não apenas voltado para o "Tonal", mas também consciente do "Nagual", para que a tocha da civilização ameríndia volte a brilhar para as Américas e para um mundo cada vez mais mergulhado nas trevas perigosamente obscuras do "Kali-Yuga".

AGRIPPA

Trecho do livro De Decana Philosophia; capítulo sobre O Poder da Alma Humana na Razão, na Mente e no Eidolon:

"O poder da imaginação e da vontade é tão poderoso que pode se insinuar em qualquer lugar, sobretudo quando este poder realizará plenamente sua natureza mágica, isto é, quando não terá mais o peso dos sentidos e da lógica da razão, que é o limite do homem normal. Então as almas se preenchem de uma luz abundante, à semelhança dos astros, que se irradia dos corpos e transforma as pessoas, mas para isso é preciso coma vontade ferrenha do mágico, fundir a razão na mente e esta no eidolon, onde se descobrirão assim duas potentíssimas virtudes: a primeira chama-se fantasia ou virtude imaginativa, que se manifesta, às vezes espontaneamente, no estado de vigília, enquanto a segunda é o senso da natureza, isto é, a harmonia e o conhecimento seletivo de todas as coisas".

CASTANEDA

Trecho do livro Porta Para o Infinito, capítulo: O Segredo dos Seres Luminosos:

"Somos percebedores. O mundo que percebemos, porém, é uma ilusão. Foi criado por uma descrição que nos foi contada desde o momento em que nascemos. Nós, os seres luminosos, nascemos com dois círculos de poder, mas só usamos um para criar o mundo. Esse círculo, que é preso logo depois que nascemos é a razão e seu companheiro é falar. Assim o mundo que sua razão quer sustentar é o mundo criado por uma descrição e suas regras dogmáticas e invioláveis que a razão aprende a aceitar e defender. 0 segredo dos seres luminosos é que têm um outro círculo de poder que nunca é usado, a vontade. O truque do feiticeiro é o mesmo do homem normal. Ambos têm uma descrição; um homem normal, a sustenta com sua razão; o outro, o feiticeiro, a sustenta com sua vontade. Ambas as descrições têm suas regras".

(Fonte: Revista Planeta nº 40, Janeiro de 1976)

Terça-feira

Xamanismo - O Caminho do Guerreiro

Prainor (Fra)

Faze o que tu queres, há de ser o todo da Lei.

Há tempos sou leitor das obras de Carlos Castañeda, que ficou famoso na década de 70 por seu livro The Teachings of Don Juan, traduzido no Brasil como "A Erva do Diabo", sua primeira obra que narrava os relatos como aprendiz do mundo cognitivo dos xamãs do México antigo. Outros livros subseqüentes se tornaram best sellers e ainda hoje são uma forte referência aos estudos antropológicos e místicos.

O xamanismo que abordaremos aqui difere um pouco do xamanismo que está em voga atualmente, onde se busca um estado de transe através do êxtase, em comunhão com os espíritos da natureza, toques de tambor indígena, visões, etc. Não, o que vamos tratar é algo mais pragmático, e que pode ser aplicado diretamente ao nosso cotidiano, são atitudes de pensamento e ação simples de se entender e que devemos vivê-los no dia-a-dia, cada pessoa à sua maneira. É simples, sim, mas nem por isso fácil. É difícil abandonar os preceitos e crenças que estão profundamente enraizados em nossas mentes desde a infância, abandonar velhos padrões, se conscientizar dos hábitos que se tornaram automáticos, e mais difícil ainda é viver de acordo com o que se pensa.

Do conjunto total dos livros de Castañeda, extraí para mim o que achei de maior importância dos ensinamentos de Don Juan Matus e comecei a aplicar o modo de vida do Guerreiro à minha própria vida, o que veio a mudar radicalmente minha maneira de pensar e agir. A obra é bem vasta, e até hoje quando releio algum dos livros acabo descobrindo idéias novas, interessantes e o que acho mais importante: práticas!

Certa ocasião, buscando informações sobre os Templários, descobri casualmente a O.T.O., e sua principal premissa, a Lei de Thelema. Até então, eu só conhecia de Thelema o que foi cantado nas músicas de Raul Seixas, e vim a descobrir depois que nem todos os Thelemitas concordam com a maneira como ele pregava suas idéias. E sobre Crowley eu conhecia o básico, que fora o maior magista do último século, que deixou uma vasta e riquíssima obra de cunho esotérico, mas até então, quase inacessível.

Ao ler pela primeira vez o Livro da Lei, me dei conta de que o modo de vida que eu procuro levar, norteado pelo caminho do Guerreiro que aprendi de Castañeda, era muito parecido com algumas passagens que encontrei ali. Isso me apanhou imediatamente! As coisas que eu acreditava, o modo de vida que eu julgava correto, os ideais pelos quais eu aspirava agora tinham um nome: A Lei de Thelema.

Comecei a traçar analogias entre o que eu havia aprendido com o xamanismo de Don Juan e o que eu estava aprendendo agora sobre Thelema, e ficou claro que embora a origem das duas culturas sejam diferentes, os caminhos são paralelos e não conflitantes.

Fazer um resumo dos ensinamentos do nagual (xamã) Don Juan seria algo além do escopo do presente ensaio, mas posso dar uma breve descrição no que diz respeito a viver como um “Guerreiro”, como é explicado nas obras de Castañeda.

Gostaria de salientar aqui que esta é apenas a minha visão, meu ponto de vista particular sobre este assunto, que naturalmente irá divergir de outras possíveis opiniões, e neste caso recomendo, obviamente, que cada um que se interessar leia os livros e tire suas próprias conclusões. Bem, no estilo de vida de um Guerreiro, ele não interfere na órbita alheia, pois ele acredita que todos temos potenciais iguais, sendo desnecessário sua interferência e sempre respeitando a decisão dos outros quanto à maneira de viver.

Um Guerreiro assume total responsabilidade por seus atos. Ele sabe que a atual situação em que se encontra é única e exclusivamente de sua própria responsabilidade.

Desta forma, não há lógica em ficar se lamentando, culpando a deus e o mundo por seus infortúnios. A responsabilidade é sua, não adianta ficar se melindrando, então ele aprende com seus erros, age para corrigir o que for possível e modificar sua vida. Ele aprende a contar apenas consigo mesmo para viver, e não desperdiça energia com sentimentos mundanos que não lhe trazem nada de útil, tais como a vaidade, o egoísmo, a compaixão e a autocompaixão, etc. Aliás, uma

das principais premissas no caminho do Guerreiro está em perder a autoimportância.

Isso é algo relacionado ao conceito de se matar o ego, que encontramos na cabala e em outras filosofias. No caminho do Guerreiro, ninguém é obrigado a fazer nada que não queira, mas uma vez assumido um compromisso, ele deverá levá-lo às últimas conseqüências, se necessário for, para cumpri-lo. Os mistérios e provações pelos quais Castañeda passou, são as ordálias e aprendizados mágickos pertinentes ao mundo cognitivo dos xamãs do México antigo, mas não diferem em grau de dificuldade, de esoterismo e simbolismo pelos quais passam os iniciados nas Ordens esotéricas de todo o mundo.

Para exemplificar melhor, citarei abaixo algumas passagens dos ensinamentos de Don Juan para Castañeda, as que me parecem mais evidentes, e você leitor poderá traçar seu próprio paralelo com a nossa Sagrada Lei de Thelema.

“Tudo o que é necessário é a impecabilidade, energia, e isto se inicia com um ato singular, que deve ser deliberado, preciso e constante. Se este ato é repetido por tempo suficiente, a pessoa adquire um sentido de intenção inflexível que pode ser aplicado a qualquer outra coisa. Se isso é realizado, o caminho está aberto. Uma coisa leva a outra até que o Guerreiro descubra seu potencial completo.”

“Os Guerreiros não se ajudam, não tem compaixão por ninguém. Para ele, ter compaixão significa que você desejava que o outro fosse como você, e você o ajuda só para isso. A coisa mais difícil do mundo é um Guerreiro deixar os outros em paz. A impecabilidade do Guerreiro é deixar os outros como são, e apoiá-los no que forem. Isso significa, naturalmente, que você confia que também eles sejam Guerreiros impecáveis.”

“Não despreze o mistério do homem em você sentindo pena de si mesmo ou tentando racionalizá-lo. Despreze a estupidez do homem em você, compreendendo-a. Mas não se desculpe por nenhum dos dois, ambos são necessários.”

“Você deve cultivar a idéia de que um Guerreiro não precisa de nada. Diz que precisa de ajuda. Ajuda pra quê? Você tem tudo o que é preciso para a viagem extravagante que é a sua vida.”

“A chave para todos esses mistérios de impecabilidade é o sentido de não ter tempo. Via de regra, quando você age como um ser imortal que tem todo o tempo do mundo, você não é impecável. Você deveria virar-se, olhar em volta e aí compreender que sua impressão de ter tempo é uma idiotice. Não há sobreviventes nesse mundo. Você deve agir sem acreditar, sem esperar recompensas, agir só por agir.”

“Não preciso de escoras nem de corrimãos. Sei quem sou. Estou sozinho num universo hostil e aprendi a dizer: que seja!”

“Esteja alerta a cada segundo. Não permita que nada nem ninguém decida por você.”

“A autoconfiança do Guerreiro não é a autoconfiança do homem comum. O homem comum procura certeza aos olhos do observador e chama a isso autoconfiança. O Guerreiro procura impecabilidade aos próprios olhos e chama a isso humildade. O homem comum está preso aos seus semelhantes, enquanto o Guerreiro só está preso ao infinito.”

“Um Guerreiro é um caçador. Calcula tudo. Isso é controle. Mas, uma vez terminado seus cálculos, ele age. Entrega-se. Isso é abandono. Um Guerreiro não é uma folha à mercê do vento. Ninguém pode empurrá-lo; ninguém pode obrigá-lo a fazer coisas contra si mesmo ou contra o que ele acha certo. Um Guerreiro está preparado para sobreviver, e ele sobrevive da melhor maneira possível.”

Acho que estas reflexões devem bastar a princípio. Sucesso é a tua prova!

Amor é a Lei. Amor sob vontade.

Quinta-feira






Tese de Lloyd Kenton Keane, que compara similaridades no pensamento de Crowley e Jung, 170 pg.

Segunda-feira

Full Tarot decks and books



























Quarta-feira

Biblioteca Maçonica


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Seitas & Morte

Seitas e Morte

William Burroughs

(1979)

Eu postulo que a função da arte e de todo pensamento criativo é nos deixar cientes daquilo que conhecemos e não sabemos que conhecemos. Você não consegue contar a alguém algo que ele ainda não saiba. Como aquelas pessoas vivendo na costa marítima na Idade Média, vendo as embarcações chegarem, mastros aparecendo primeiro, ano após ano, e então Galileu os instrui e eles estão prontos para queimá-lo como um intelectual pervertido. Mas eles ficam mais tranqüilos ao longo dos anos e finalmente têm de admitir: "É redonda, rapazes, é redonda. Nós sabíamos o tempo todo". Cézanne mostrou os objetos ao espectador vistos de certo ângulo, sob uma certa luz e eles atacaram suas telas com guarda-chuvas na primeira exposição. Bem, isso não acontece mais e qualquer criança reconheceria os objetos num quadro de Cézanne. Joyce [James Joyce] fez os leitores ficarem cientes do fluxo de consciência e foi acusado de promulgar um culto à ininteligibilidade.

Se a função da arte é nos tornar cientes do que sabemos e daquilo que não sabemos que sabemos, a função da Igreja Cristã e de toda sua metástase foi e ainda é nos manter na ignorância daquilo que sabemos. Pessoas que viviam no litoral sabiam que a Terra era redonda. Eles acreditaram que era plana porque assim foi dito pela Igreja. E os membros linha-dura da Synanon ainda acreditam que a mídia colocou aquela cascavel na caixa de correio de Paul Morantz para desacreditar a Synanon. Existe algum limite para a lavagem cerebral? Aparentemente não. Cultos como Synanon, a Cientologia, o Peoples Temple [Templo dos Povos] derivam da mesma fonte infectada, como o Cristianismo. De fato, eles recapitulam a história do Cristianismo palavra por palavra, como o inevitável curso de uma doença horrível: ignorância criminosa, estupidez brutal, fanatismo hipócrita e medo paranóico de quem não pertence ao grupo. Para o praticante do culto, psiquiatras, a mídia e agências do Governo tornaram-se a encarnação de Satã. Assim como os cristãos fundamentalistas, eles têm que estar certos.

Mas o Cristianismo soou bem à primeira vista para o convertido ingênuo. Amor, paz e caridade – o que há de errado com isso? Eu direi o que está errado – uma série de horrores sem precedentes perpetrados pelos assim chamados Cristãos: A Inquisição, os Conquistadores, as guerras Indígenas Americanas, a escravidão, Hiroshima e o atual Bible Belt. Aquela religião venenosa dos velhos tempos que eles fomentaram constitui uma ameaça a todos os passageiros da espaçonave Terra. Por que isso aconteceu, e por que acontece com as seitas que se originam do Cristianismo? O que estava errado com o Cristianismo em seu começo? No começo era a palavra e a palavra era Deus.

Existe um livro interessante intitulado The Origin of Consciousness in the Breakdown of the Bicameral Mind ["A Origem da Consciência na Ruptura da Mente Bicameral"]. O autor, Julian Jaynes, postula que o respeito e reverência profundos que os antigos sacerdotes detinham, derivaram de sua habilidade de produzir sua voz nos cérebros dos súditos leais. Esta é a voz de deus, que se afunila através do hemisfério cerebral não-dominante. Jaynes cita evidências clínicas: a estimulação do hemisfério não-dominante fez voluntários ouvirem vozes. Um suicida salvo de afogamento declarou que uma voz em sua cabeça disse a ele para se matar, e que, por alguma razão, ele tinha que obedecer àquela voz. Se você quer começar um culto, o primeiro passo é levar sua voz para dentro do hemisfério não-dominante do cérebro dos seus futuros seguidores. O curso de Cientologia envolve horas de audição da voz Ron Hubbard em fitas cassetes. Dizem que a voz de Dederich, fundador da Synanon, parece sair do sistema de ar condicionado, e o reverendo Jim Jones tinha fitas de sua voz continuamente transmitidas por alto-falantes em Jonestown.

O segundo passo: faça inimigos. Se existe uma coisa de que o líder de um culto precisa são inimigos – reais ou imaginários – dos quais libertar seu rebanho. Tendo postulado inimigos diabólicos, o líder então estabelece pelotões de comando para lidar com a situação crítica inventada: the Sea Org of Scientology, the Imperial Mariners of Synanon [os Marinheiros Imperiais de Synanon], as guardas armadas de Peoples Temple. Atos agressivos cometidos por esses defensores produzem contra-ações de fora. Afinal de contas, o que esperar quando você invade escritórios do Governo, põe cascavéis na caixa de correio das pessoas e assassina um Congressista? Esses contra-ataques levam à paranóia crescente e mais e mais medidas extremas.

Dada a habilidade de projetar sua voz na mente alheia, aqui vai a planta de um projeto:

ACT, the Anti-Cancer Temple [O Templo Anti-Câncer], foi fundado por Tobias Antony Crump, um pastor singular da Igreja Radiante do Cristo Regenerado. Ele alugou um hotel no interior de Nova York onde ofereceu, por um preço razoável, curar pessoas do hábito de fumar em sete dias. A cura se dava por sugestões implantadas na que ele chamou de "a outra mente". As sugestões eram administradas através de fones de ouvido que seus fregueses eram ordenados a usar dia e noite durante os sete dias de cura. No fim desse período, todos os fregueses renascidos decidiram ficar no Templo e trabalhar para o ACT. Como retribuição pelo privilégio de se tornarem ACTivistas, eles foram obrigados a dar dez por cento de suas posses ao ACT.

Crump prosperou e expandiu suas instalações. Mais e mais pressão era colocada em fregueses curados para permanecerem após terem completado o curso anti-tabagismo. Era dito a eles que a cura ainda não estava completa. Se eles retornassem a suas velhas casas, iriam inevitavelmente recair e morrer de câncer em poucos anos. Além disso, eles tinham o sagrado dever de ajudar os outros. O Câncer, ensinou ele, era uma conspiração Venusiana para tomar o planeta. Alienígenas estavam chegando em tecidos cancerosos como parasitas invisíveis, e estavam invadindo mentes e corpos de todas as posições sociais. O Reverendo Crump publicava um tablóide semanal no qual lançava acusações formais absurdas contra todos os inimigos do ACT, uma lista que agora incluía as companhias de tabaco, a FDA [Food and Drug Administration], a Organização Mundial da Saúde, a Sociedade de Pesquisa do Câncer, o FBI, a CIA, os meios de comunicação, a Interpol, a I.R.S [agência norte-americana responsável pela coleta de impostos], o Partido Comunista. Um cartum típico mostrava o Tio Sam atingido na face por uma massa de putrescência cancerosa parecida com uma torta: "Da Rússia, Com Amor".

Quando uma bomba destruiu parcialmente um dos prédios externos do templo, Crump declarou estado de absoluta emergência. Seus seguidores deviam agora dar metade de suas posses mundanas e todo seu tempo ao ACT. Ele declarou guerra total a seus adversários Satânicos. Quando um repórter investigativo, enviado para fazer uma matéria sobre a história do ACT, desapareceu sob circunstâncias misteriosas, o fundador proclamou que a investigação subseqüente "inequívoca e claramente prova uma conspiração de dez anos por parte das agências do Governo atuando com o suporte da mídia para suprimir uma Igreja".

O Reverendo Crump estava envolvido em incontáveis ações judiciais, movendo ações contra qualquer crítico do ACT. As despesas resultantes foram mais que compensadas pelo constante influxo de dinheiro, com o qual ele comprou imóveis. Agora possuía extensões de terra na Flórida, New Hampshire, Leste do Texas e Montana, onde construiu templos para seus seguidores, que eram estimados em centenas de milhares. Ele ensinou que todos deveriam se fundir em um só organismo através do que chamou fusão biológica. Somente desse modo poderiam eles conter o vírus Venusiano, que estava tomando o resto do mundo. Para favorecer a fusão biológica aconteceram bizarras orgias sexuais em massa e festivais de nudez para romper a resistência residual e deixar vir a radiante luz de Cristo. Ele instituiu as Transmissões Negras, nas quais seus seguidores reuniam-se, em tempo sincronizado, para concentrarem malevolência silenciosa nos inimigos da semana, cujos nomes, endereços e fotos apareciam numa tela. Seus seguidores foram agora obrigados a dar todas as suas posses para o ACT, e foram informados de que deveriam estar prontos para oferecer sangue vital se necessário. Deserção era um crime punido com morte. Havia prática contínua de artes marciais e bestiais urros, grunhidos e rosnaduras podiam ser ouvidos a quilômetros de distância. Qualquer vizinho que reclamasse era colocado na lista de inimigos. Crump vangloriava-se pelo fato de que bastava levantar a mão para despachar seus seguidores como um único homem em missões kamikaze de assassinato e sabotagem. Havia rumores de que ele tinha de prontidão dispositivos nucleares e gás letal suficiente para cobrir toda a Costa Leste. "Ele poderia derrubar o governo deste país como um castelo de cartas", declarou em tom neutro um oficial de alta patente

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Richard Nixon explodiu a imagem Presidencial em Watergate. Eu acho que ele entrará para a história como um herói do povo. O Reverendo Jones, seguindo o exemplo, recorreu à questão do princípio da liderança, que é a base de toda a autoridade. Com o que são construídas igrejas, exércitos, nações, senão com líderes e a crença de que estes líderes sabem o que estão fazendo e que o cidadão deve a eles obediência inquestionável?

Qualquer um que acredite possuir todas as respostas é um lunático.

E lunáticos são perigosos para si e para os outros. A Espaçonave Terra é muito pequena e populosa para acomodar seitas lunáticas. A resposta é muito simples: ao invés de serem isentas de impostos, igrejas deveriam ser taxadas em dobro. Deveriam ser taxadas para fora da existência.

Ensaio originalmente publicado no livro "Roosevelt After Inauguration" (City Lights Books, 1979 54pp)

Sexta-feira

Cabalah


Cabala, Cabalah, Qabalah, são algumas das variações do nome que tem como significado, “Tradição”, ou “Aquilo que é transmitido”. Sua origem se perde na noite dos tempos, quando segundo os antigos registros históricos, foi passado de Enoque a Abraão e continuada por Moisés, e desde então tem evoluído através de diversas culturas e correntes de pensamento. A representação sistemática da Cabalah é a árvore da vida, ou Otz Chiim em hebraico, e é como um mapa que aponta as diversas esferas ou dimensões, onde transita o espírito ou consciência humana.A árvore da vida é constituída de onze Sephirotes, ou Séfiras como também são chamadas: Dez esferas visíveis + Dääth, que corresponde ao abismo que existe entre as três superiores, Binah, Chokmah e Kether, e as esferas de Geburah, Chesed e Tipharet. Além das Sephirotes, a árvore da vida é formada também pelos vinte e dois caminhos que ligam as esferas, e também os quatro mundos que a dividem. Como tudo que existe está sujeito à evolução, há também uma teoria, que por sinal muito lógica, onde se adciona mais duas esferas acima de Kether, mas não falaremos sobre isso aqui, não no momento.As esferas chamadas de Sephirotes, ou Séfiras, são numeradas em ordem de cima para baixo, formando o caminho do raio, que é a descida da energia divina proveniente de Kether, que em sua seqüência passa por todas as Sephirotes até manifestar-se em Malkuth, tal como a conhecemos.


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